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Patricia Rangel
 
 

Patrícia Rangel

Mulher Brasileira, Cantora, Compositora,
Artesã, Professora, Bacharel em Direito.

   
     


Consumo. logo existo

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no
Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na
pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha,
feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira",
disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo:
refrigerantes, sorvetes etc.A economia de mercado, centrada no lucro
e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos.
O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim,
a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais
- manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo,
criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é
missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo
desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de
cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres,
apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia
de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas
indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o
alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos
econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada
um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens.
Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal
modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também
consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que
me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado
deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à
cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as
pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se
encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um
aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza
faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio
carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais,
na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da
grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se
adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um
Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se
traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira
transforma-se em cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura
neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos
cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos
eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do
consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos
transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse
privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão,
infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos
cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela
se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais
que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc.

Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de
consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas
pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam
vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o
espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola
abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da
falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia
ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem
que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela
internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa
todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das
lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se
acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas
fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então
explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de
Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E,
assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas
observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

Frei Betto - Frei dominicano. Escritor.

 
 
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